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O que é arte e quem tem o direito de censura?

Nos últimos tempos o Brasil foi inundado por polêmicas envolvendo arte, artistas, apresentações e exposições. A coisa começou com a exposição Queermuseu no Santander de Porto Alegre. A mostra era composta por obras de vários artistas nacionais e o objetivo era tratar o tema da diversidade. A exposição foi duramente atacada na internet e movimentos como o MBL (Movimento Brasil Livre) fizeram piquetes e causaram constrangimento à artistas, curadores e visitantes da mostra. As acusações eram de que as obras de arte incitavam à pedofilia, zoofilia e blasfêmia. A pressão foi tanta que o Santander resolveu cancelar a exposição.

Em outro momento, uma performance artística no Museu de Arte Moderna de São Paulo foi palco de polêmica. Um artista nu se encontrava no local e as pessoas eram convidadas à interagir com ele. Tudo corria bem até que uma mulher levou sua filha de 4 anos para interagir com o ator. A internet explodiu e todo mundo foi acusado de pedofilia (o que só leva a crer que ninguém no Brasil sabe o que é pedofilia) e até a justiça já foi envolvida no caso.

Algumas coisas podem ser observadas nesses dois casos. A primeira é que agora, nesse momento, o Brasil está lotado de críticos de arte, mesmo que o máximo que eles tenham chegado perto de arte foi a aula de educação artística no ensino fundamental. A maior parte de quem foi contra não frequenta museus, não vai a concertos e não costuma assistir peças de teatro. Então fica complicado determinar o que é e o que não é arte.

Em tempos antigos, peguemos até a Idade Média, arte era sinonimo de habilidade. Você tinha que ter habilidade com as mãos para pintar, esculpir, desenhar. Ou seja, era um ofício como qualquer outro. Você era pago para executar trabalhos para nobreza, o clero ou a realeza. Um bom exemplo são as esculturas do Vaticano ou o teto das igrejas adornados com belas pinturas. O objetivo do artista era, primordialmente, tentar representar o mundo real da maneira mais perfeita possível. Um bom exemplo desse tipo de arte é La Pudicizia Velata (A Modéstia Velada), de Antonio Corradini, de 1751, que está na Cappella Sansevero, em Nápoles. Percebam a habilidade do artista em simular um tecido transparente em uma escultura de mármore.

Hoje o conceito de arte mudou. Um pouco dessa mudança se deve ao surgimento da fotografia também. A imagem fotográfica consegue registrar a realidade com extrema perfeição. Não era mais necessário usar pintura ou desenho para esse registro. Então a arte ficou livre para traçar caminhos que flertavam com o abstrato e o surreal. Então, hoje, a arte está muito mais ligada ao conceito que quer ser demonstrado do que com a obra em si. A obra de arte é apenas um suporte, uma ferramenta para contar uma história ou transmitir uma ideia. E seu valor está muito mais ligado à trajetória do autor e sua reputação do que ao trabalho técnico necessário para executar a obra. Uma pintura de Rembrandt vale muito dinheiro pela reputação do artista, mas essa reputação está ligada à sua extrema habilidade em retratar pessoas e criar um esquema de iluminação genial em seus quadros. Hoje, uma foto de uma batata vale 1 milhão de Euros por conta do nome do autor.

Voltando ao caso do Queermuseu, as obras de arte expostas no local tinham por objetivo discutir um tema que a sociedade não vê com bons olhos e realmente são chocantes. Arte não existe para te deixar feliz, ela existe para criticar a sociedade, levantar assuntos importantes, constranger as pessoas.  A arte contemporânea tem por principal objetivo fazer as pessoas questionarem e pensarem a realidade em que estão inseridas. Nesse ponto de vista, a exposição foi um total sucesso. Porém, tivemos a intromissão de um grupo que se acha no direito de determinar o que as pessoas podem ou não podem ver. O Nazismo e o Fascismo também se colocavam nessa mesma posição em relação a sociedade. Sim, são movimentos de extrema direita iguais aos que presenciamos no começo do século XX. Você pode não concordar com a exposição, você pode achar que é arte ruim (mesmo não entendendo de arte), você pode escrever textão no Facebook, mas impedir que a exposição aconteça é só fascismo de extrema direita. A mais idiota e asquerosa forma de censura.

Da mesma forma, a apresentação do Museu de Arte Moderna de São Paulo era uma intervenção artística genuína. Utilizar nudez para passar uma mensagem é uma constante na arte desde o renascimento. A apresentação estava acontecendo em um local reservado e havia várias indicações que no local estava acontecendo uma intervenção artística com nudez. Podemos afirmar que o erro foi da organização que não percebeu a entrada da criança e também da mãe que a levou em um local onde estava acontecendo a apresentação. Perante o estatuto da criança e do adolescente não existe desculpa para isso. Deve ser investigado e apurado se houve crime previsto no estatuto e os responsáveis punidos.

Mas, as pessoas entraram em polvorosa com acusações de pedofilia. Aliás, as pessoas são totalmente neuróticas com esse termo. Acredito que 99% das pessoas não sabe o que é pedofilia (uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde) e que no Brasil não existe crime de pedofilia.O que existe é "crimes sexuais contra vulneráveis", até porque a maior parte de quem comete crimes contra crianças não são pedófilos.  O fato de uma criança ver um adulto nu não é e nunca foi pedofilia. O crime só acontece quando existe erotização. Não é automático. Se fosse não haveria crianças em praias de nudismo.

No caso do Museu de Arte Moderna não houve erotização (o vídeo prova isso), mas temos que pensar se não seria uma atividade que deveria apresentar uma faixa etária. Minha preocupação não é o que a criança acha de um homem nu (teríamos que proibir crianças em praias também, visto o quão minúsculas estão as roupas de banho, e pais e mães deveriam ser proibidos de tomar banho com os filhos), mas se ela tem idade e maturidade cognitiva para compreender o conceito que estava sendo desenvolvido na apresentação.

E o que é arte? Hoje, e sempre, arte é uma forma de comunicação. Uma forma de questionamento de uma situação ou conduta social. Ela existe para nos colocar contra a parede e nos obrigar a encarar aquilo que não gostamos ou não comentamos. Ela existe para tentar mudar aquilo que pode, ou deve, ser mudado. Se a arte te constrangeu, te causou agonia, se ela incitou o ódio, então ela cumpriu a sua função. O que nos cabe em tempos de internet raivosa e do surgimento de especialistas em tudo, é saber que liberdade de expressão e direito de ir e vir não são apenas palavras, são direitos conquistados com muita luta.

Finalizo esse texto citando Pablo Picasso: "A arte nunca é casta, se deveria mantê-la longe de todos os cândidos ignorantes. Nunca se deveria deixar que gente impreparada se lhe aproximasse. Sim, a Arte é perigosa. Se é casta não é Arte".

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