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Nos últimos tempos, os movimentos de direita e extrema direita do Brasil tem atacado impiedosamente a Lei Rouanet. Criada para o fomento da cultura no Brasil, ela pode não ser perfeita, mas é uma das armas mais poderosas que temos para democratizar a cultura. Movimentos como o MBL atacam o projeto dizendo que ele favorece a elite cultural do Brasil e que apenas uns poucos tem acesso aos financiamentos. É uma grande balela, mas algumas coisas realmente precisam ser mudadas. Porém, ao contrário do que esses movimentos pregam, nós devemos sanar os problemas e não matar o a iniciativa.

O programa funciona mais ou menos assim. Você escreve um projeto e da entrada com o pedido de renuncia fiscal. Esse projeto é avaliado quando a viabilidade de execução e valores a serem captados. Quando o projeto passa por essas avaliações o Ministério da Cultura libera os proponentes a captarem uma certa quantia. Cabe agora aos organizadores baterem na porta das empresas, mostrarem o projeto e convencerem as empresas a destinarem parte dos seus impostos para as atividades. Muitos projetos acabam conseguindo captar a quantia liberada, e outros não.

A meu ver é nesse ponto que está o grande problema. As empresas tendem a liberar a porcentagem de seus impostos e, consequentemente, seus nomes como patrocinadores para artistas já conhecidos e espetáculos ou exposições que já possuem público garantido. Artistas e projetos mais humildes tendem a sofrer nesse ponto, pois grandes empresas não fazem questão de vincular seus nomes a projetos e manifestações de pouca penetração no grande público. É justamente esse mecanismo que deveria ser revisto na Lei. Projetos que poderiam se sustentar sem a necessidade desse tipo de financiamento deveriam ser vistos com mais rigidez e  criar alguma forma de favorecer o pequeno artista.

Nessa semana, a produtora Agilidade Entretenimento conseguiu aprovar um financiamento de 8,9 milhões pela Lei Rouanet para uma exposição mostrando a vida e a obra da apresentadora de TV Xuxa. Pelo o que foi publicado na mídia, a exposição vai privilegiar principalmente a época do Xou da Xuxa que foi ao ar pela TV Globo. As críticas já começaram nas redes sociais. Mas, eu digo que nada de errado foi feito. O projeto foi escrito dentro das normas, passou pelas avaliações e foram emitidas as permissões para captação de recurso.

A pergunta, a meu ver, seria: esse projeto teria capacidade de se manter sozinho e sem o apadrinhamento do poder público? Talvez sim, talvez não. O que importa que é que a possibilidade de participar dos incentivos da Lei estão disponíveis para todos. Criticar esses casos é fácil, mas ninguém dá atenção a outros milhares de pequenos projetos que estão se beneficiando das renúncias fiscais. É notório que o Governo faz muito pouco pela cultura. Tentar eliminar as poucas possibilidades que temos de financiamento da arte é só mais um passo no projeto destes movimentos de acabar com o que resta de pensamento crítico na sociedade.

Finalmente aconteceu. Depois de anos dominando a preferência das pessoas, o Facebook é praticamente a internet. Tudo bem, não é, mas a quantidade de pessoas que interage online apenas pela rede social é impressionante. Essa dominação foi acontecendo com implementações interessantes e a compra de empresas que pudessem agregar mais seguidores ao império (como o Instagram). Com esse grande fluxo de pessoas participando, os empresários logo perceberam que seria interessante, e obrigatório, que suas empresas possuíssem um perfil na rede social.

Com o tempo, o Facebook obrigou às empresas a transformarem o perfil em página e com isso começou o nosso calvário. Percebemos que as nossas publicações não eram vistas por todos nossos seguidores. Apenas uma parcela das pessoas recebiam as postagens. E com o passar dos anos a proporção de pessoas que viam essas publicações foi diminuindo. Hoje, se você quiser que sua empresa tenha uma visibilidade dentro da rede social, é necessário pagar por isso. Com pequenos pagamentos por posts o Facebook garante que sua publicação irá ser vista por uma quantidade determinada de pessoas.

Eu não vejo problema nisso. O Facebook é uma empresa que precisa ganhar dinheiro para se manter. Se você quer utilizar a plataforma para ganhar dinheiro, nada mais justo que você pague por essa propaganda. Mas, agora parece que a coisa vai atingir outro patamar. O Facebook está testando em alguns países uma nova forma de organizar o feed de notícias dos usuários. Essa nova forma privilegia a publicação de parentes e amigos e retira totalmente da timeline dos usuários publicações de páginas. Ou seja, a única maneira de ser visto é pagando para o Facebook compartilhar suas postagens e promoções. Nos locais onde a nova funcionalidade está sendo testada, um novo ícone apareceu na barra de ferramentas (esquerda da página) chamada Explores Feed onde você pode acessar a visualização das páginas, mas acredito que pouca gente vai perceber ou habilitar essa função.

E o que resta? Produtores de conteúdo nos locais onde essa nova forma de apresentação está sendo testada já relataram queda de visualização da ordem de 75% nas páginas. Bom para o Facebook que vai ter mais pessoas pagando pelas propagandas.

Mas, aqui fica a dúvida. O Facebook é realmente o melhor lugar para divulgar o seu negócio. Por conta da quantidade de pessoas dentro do serviço eu diria que sim, mas será esse o seu público? No marketing digital colocar todos os ovos no mesmo cesto é uma loucura. Você deve estar presente em várias redes, mas não deve esquecer que o mais seguro e garantido local de publicidade é o seu próprio site/blog. Você é o dono e pode fazer qualquer coisa. Com uma politica constante de atualizações ele fica bem classificado no Google e você pode gastar uma grana com o adwords para garantir uma visitação.

Melhor depender apenas de você e não ficar refém de regras de serviços particulares.

Nos últimos tempos o Brasil foi inundado por polêmicas envolvendo arte, artistas, apresentações e exposições. A coisa começou com a exposição Queermuseu no Santander de Porto Alegre. A mostra era composta por obras de vários artistas nacionais e o objetivo era tratar o tema da diversidade. A exposição foi duramente atacada na internet e movimentos como o MBL (Movimento Brasil Livre) fizeram piquetes e causaram constrangimento à artistas, curadores e visitantes da mostra. As acusações eram de que as obras de arte incitavam à pedofilia, zoofilia e blasfêmia. A pressão foi tanta que o Santander resolveu cancelar a exposição.

Em outro momento, uma performance artística no Museu de Arte Moderna de São Paulo foi palco de polêmica. Um artista nu se encontrava no local e as pessoas eram convidadas à interagir com ele. Tudo corria bem até que uma mulher levou sua filha de 4 anos para interagir com o ator. A internet explodiu e todo mundo foi acusado de pedofilia (o que só leva a crer que ninguém no Brasil sabe o que é pedofilia) e até a justiça já foi envolvida no caso.

Algumas coisas podem ser observadas nesses dois casos. A primeira é que agora, nesse momento, o Brasil está lotado de críticos de arte, mesmo que o máximo que eles tenham chegado perto de arte foi a aula de educação artística no ensino fundamental. A maior parte de quem foi contra não frequenta museus, não vai a concertos e não costuma assistir peças de teatro. Então fica complicado determinar o que é e o que não é arte.

Em tempos antigos, peguemos até a Idade Média, arte era sinonimo de habilidade. Você tinha que ter habilidade com as mãos para pintar, esculpir, desenhar. Ou seja, era um ofício como qualquer outro. Você era pago para executar trabalhos para nobreza, o clero ou a realeza. Um bom exemplo são as esculturas do Vaticano ou o teto das igrejas adornados com belas pinturas. O objetivo do artista era, primordialmente, tentar representar o mundo real da maneira mais perfeita possível. Um bom exemplo desse tipo de arte é La Pudicizia Velata (A Modéstia Velada), de Antonio Corradini, de 1751, que está na Cappella Sansevero, em Nápoles. Percebam a habilidade do artista em simular um tecido transparente em uma escultura de mármore.

Hoje o conceito de arte mudou. Um pouco dessa mudança se deve ao surgimento da fotografia também. A imagem fotográfica consegue registrar a realidade com extrema perfeição. Não era mais necessário usar pintura ou desenho para esse registro. Então a arte ficou livre para traçar caminhos que flertavam com o abstrato e o surreal. Então, hoje, a arte está muito mais ligada ao conceito que quer ser demonstrado do que com a obra em si. A obra de arte é apenas um suporte, uma ferramenta para contar uma história ou transmitir uma ideia. E seu valor está muito mais ligado à trajetória do autor e sua reputação do que ao trabalho técnico necessário para executar a obra. Uma pintura de Rembrandt vale muito dinheiro pela reputação do artista, mas essa reputação está ligada à sua extrema habilidade em retratar pessoas e criar um esquema de iluminação genial em seus quadros. Hoje, uma foto de uma batata vale 1 milhão de Euros por conta do nome do autor.

Voltando ao caso do Queermuseu, as obras de arte expostas no local tinham por objetivo discutir um tema que a sociedade não vê com bons olhos e realmente são chocantes. Arte não existe para te deixar feliz, ela existe para criticar a sociedade, levantar assuntos importantes, constranger as pessoas.  A arte contemporânea tem por principal objetivo fazer as pessoas questionarem e pensarem a realidade em que estão inseridas. Nesse ponto de vista, a exposição foi um total sucesso. Porém, tivemos a intromissão de um grupo que se acha no direito de determinar o que as pessoas podem ou não podem ver. O Nazismo e o Fascismo também se colocavam nessa mesma posição em relação a sociedade. Sim, são movimentos de extrema direita iguais aos que presenciamos no começo do século XX. Você pode não concordar com a exposição, você pode achar que é arte ruim (mesmo não entendendo de arte), você pode escrever textão no Facebook, mas impedir que a exposição aconteça é só fascismo de extrema direita. A mais idiota e asquerosa forma de censura.

Da mesma forma, a apresentação do Museu de Arte Moderna de São Paulo era uma intervenção artística genuína. Utilizar nudez para passar uma mensagem é uma constante na arte desde o renascimento. A apresentação estava acontecendo em um local reservado e havia várias indicações que no local estava acontecendo uma intervenção artística com nudez. Podemos afirmar que o erro foi da organização que não percebeu a entrada da criança e também da mãe que a levou em um local onde estava acontecendo a apresentação. Perante o estatuto da criança e do adolescente não existe desculpa para isso. Deve ser investigado e apurado se houve crime previsto no estatuto e os responsáveis punidos.

Mas, as pessoas entraram em polvorosa com acusações de pedofilia. Aliás, as pessoas são totalmente neuróticas com esse termo. Acredito que 99% das pessoas não sabe o que é pedofilia (uma doença reconhecida pela Organização Mundial da Saúde) e que no Brasil não existe crime de pedofilia.O que existe é "crimes sexuais contra vulneráveis", até porque a maior parte de quem comete crimes contra crianças não são pedófilos.  O fato de uma criança ver um adulto nu não é e nunca foi pedofilia. O crime só acontece quando existe erotização. Não é automático. Se fosse não haveria crianças em praias de nudismo.

No caso do Museu de Arte Moderna não houve erotização (o vídeo prova isso), mas temos que pensar se não seria uma atividade que deveria apresentar uma faixa etária. Minha preocupação não é o que a criança acha de um homem nu (teríamos que proibir crianças em praias também, visto o quão minúsculas estão as roupas de banho, e pais e mães deveriam ser proibidos de tomar banho com os filhos), mas se ela tem idade e maturidade cognitiva para compreender o conceito que estava sendo desenvolvido na apresentação.

E o que é arte? Hoje, e sempre, arte é uma forma de comunicação. Uma forma de questionamento de uma situação ou conduta social. Ela existe para nos colocar contra a parede e nos obrigar a encarar aquilo que não gostamos ou não comentamos. Ela existe para tentar mudar aquilo que pode, ou deve, ser mudado. Se a arte te constrangeu, te causou agonia, se ela incitou o ódio, então ela cumpriu a sua função. O que nos cabe em tempos de internet raivosa e do surgimento de especialistas em tudo, é saber que liberdade de expressão e direito de ir e vir não são apenas palavras, são direitos conquistados com muita luta.

Finalizo esse texto citando Pablo Picasso: "A arte nunca é casta, se deveria mantê-la longe de todos os cândidos ignorantes. Nunca se deveria deixar que gente impreparada se lhe aproximasse. Sim, a Arte é perigosa. Se é casta não é Arte".