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O programa de hoje é para quem quer se aprofundar na fotografia. Aproveitando que a oficina de Fotografia Autora e Ensaio Fotográfico vai ser ministrada no município de Teodoro Sampaio-SP no mês de junho, estamos aqui para falar um pouco sobre a nobre arte dos ensaios fotográficos e aquecer as turbinas para o evento. Nesse podcast você vai ficar sabendo um pouco sobre minhas influências, sobre como entrei no mundo do ensaio fotográfico, o que eu acho sobre a fotografia autoral e também o recente universo da fotografia fine art como representante mais nova da fotografia artística.
...continuar lendo "Sons da Gruta #010 – Fotografia Autoral e Ensaio Fotográfico"

Os fotógrafos brasileiros estão finalmente descobrindo que a fotografia pode ser utilizada para defender suas mais variadas causas. Quando você coloca conteúdo em sua imagem ela deixa de ser uma simples foto e passa a ser algo mais. Em alguns casos ela se torna arte, em outros apenas um efetivo e competente meio de comunicação.  Pensar um ensaio fotográfico com conteúdo é o primeiro passo para se livrar das amarras do tecnicismo na fotografia e finalmente se sentir livre. Mas, nem sempre concordamos com a mensagem.

Hoje decidi colocar a mão em um vespeiro. Nos últimos tempos temos visto as mais variadas causas sendo defendidas pelos chamados SJW (Guerreiros da Justiça Social). São pessoas que defendem sua visão de um mundo "mais justo" com unhas e dentes, mesmo que essa visão não seja tão justa assim, Uma das vertentes é a que luta contra a gordofobia. Isso mesmo, contra o preconceito contra pessoas gordas. Esse preconceito existe? Sim, claro, passei por ele a minha vida inteira, mas ele não me impediu de fazer faculdade, estudar fotografia e atingir meus objetivos. Na verdade, a obesidade, e não o preconceito, é que limitam minha vida.

Na semana do Natal, o fotógrafo  Israel Reis publicou em seu instagram um projeto fotográfico que tem por objetivo discutir a miscigenação e a questão da gordofobia. Para isso, realizou um ensaio fotográfico com bailarinas plus size (mulheres brancas e negras) em uma antiga fazenda que foi construída durante o período da escravidão no Brasil. Uma das modelos foi sua própria esposa, que é uma das dançarinas plus size da cantora Anita. O ensaio se chama "Mulheres, miscigenadas, gordas e felizes". Segundo o fotógrafo, o objetivo do ensaio fotográfico era debater o preconceito. Veja abaixo uma das imagens deste ensaio.

Que existe um preconceito contra gordos na sociedade isso é real. O ser humano não gosta muito daquilo que foge da normalidade vigente. Mas, o fato de ter o direito de não ser prejudicado simplesmente por conta de sua forma física não quer dizer que devemos aceitar a obesidade mórbida como sendo normal. Isso é um caso de saúde pública. É ótimo ver todo mundo dizendo que se aceita e se gosta, mas a saúde está sendo prejudicada e esse tipo de campanha ou mensagem pode levar outras pessoas a pensarem que esse estado físico é normal. Não é. Junto com a obesidade temos todos os tipos de problemas como diabetes, hiper tensão, problemas cardíacos e respiratórios, distúrbios do sono, etc. Muitos podem dizer que são gordos e não possuem esses problemas, mas isso é só temporário e enquanto for jovem. Um dia o preço vai ser pago.

Ser obeso não é normal. Procure um endocrinologista e um nutricionista. Comece uma dieta balanceada. Crie uma rotina de exercícios. Perca peso. Não é impossível. Todo mundo é capaz, só é preciso a força de vontade. Sua vida vai mudar, sua disposição vai aumentar e você vai perceber que a vida pode oferecer muito mais do que você têm.

Sim, as polêmicas fazem parte do ser humano e dos nossos tempos do politicamente correto e dos SJW (Social Justice Warriors). Mas, em alguns momentos a polêmica é justa e você fica pensando como as pessoas se metem nessas enrascadas. A coisa aqui chega até o viés do impossível. Como um fotógrafo se coloca nessa situação?

A história é a seguinte. A atriz Lupita Nyong'o, de origem keniana-mexicana, foi convidada a estrelar a capa da revista feminina Grazia em sua versão do Reino Unido. Para quem não conhece, Lupida ganhou o Oscar por sua atuação no filme 12 Anos de Escravidão (filme muito bom, vale a pena dar uma olhada se você gosta de dramas). Até ai tudo bem, pois esse tipo de trabalho faz parte das atividades de uma atriz de fama internacional.

Porém, o caldo entornou quando a revista chegou às bancas. A atriz acusou a publicação de ter editado, modificado e suavizado o seu cabelo para se encaixar em algum padrão de beleza. Comparando as duas fotos percebemos que a modificação foi brutal e muito longe de ter sido um simples erro. Claro que Lupita não gostou e colocou a boca no trombone nas redes sociais (nossa atual arena de gladiadores virtuais).  Vejam abaixo o desabafo da atriz no twitter:

Ela postou a mesma imagem no seu Instagram com um texto muito mais longo dizendo que adora seu cabelo natural e que o usa com orgulho para mostrar para as crianças que elas são lindas do jeito que são. Ela também conta que cresceu pensando que cabelo liso e pele branca eram o padrão de beleza normal. Ou seja, declarações que pegaram muito pesado para com a revista.

A Grazia foi rápida em divulgar um comunicado pedindo desculpas sem nenhuma ressalva ao acontecido e que sempre apoiou a diversidade e todos os atuais discursos das militâncias, mas que também foi uma vítima na situação, pois as imagens foram entregues pelo fotógrafo dessa maneira e que não foi exigido nenhum tipo de edição para com a aparência da atriz.

O fotógrafo An Le também soltou um comunicado dizendo ter refletido sobre o acontecido e que chegou a conclusão que realmente cometeu um erro. Ele pede um monte de desculpas e se diz arrependido, mas em nenhum momento o animalzinho diz o motivo que o levou a fazer tão drástica mudança na imagem.

Pode parecer uma coisa boba, coisa de SJW, coisa de pessoas que estão de mimimi, mas sempre gosto de citar fatos. Modelos negras possuem uma participação muito pequena em capas de revista. Semana passada vi um levantamento apontando que, em 40 anos de revista Playboy no Brasil, apenas 9 capas foram para mulheres negras. Isso em um país onde a porcentagem de mulheres negras é muito grande. Em um momento que as atrizes negras estão assumindo a luta pela sua identidade, sofrer uma "agressão" como essa é imperdoável. Um total desserviço.